O Desejo Que Escapa, Apesar de Você Poeta Hiran de Melo Ao escutar Apesar de Você , de Chico Buarque, não ouvimos apenas uma melodia — ouvimos um chamado. Um chamado à resistência, à coragem, à vida que insiste em florescer mesmo quando tudo parece escuro. Em tempos de censura e medo, Chico não apenas protestou: ele transformou dor em poesia, silêncio em canto, repressão em esperança. E isso nos toca profundamente, especialmente a nós que buscamos iluminar o caminho com nossos passos e inspirar com nosso exemplo. A canção fala de um “você” que tenta mandar em tudo, que impõe regras, que quer controlar até o que sentimos. Mas o desejo — essa força que nos move por dentro — não se deixa prender. Ele escapa, retorna, se infiltra nas brechas da fala, nas entrelinhas da arte, nos gestos mais simples. Como nos ensina Jacques Lacan , o desejo é o que nos constitui como sujeitos. Ele nunca se satisfaz por completo, mas é o que nos impulsiona a sonhar, a criar, a viver. Chico soube captar isso ...
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Mostrando postagens de setembro, 2025
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Ouro De Tolo Raul Seixas Eu devia estar contente porque eu tenho um emprego Sou o dito cidadão respeitável e ganho quatro mil cruzeiros por mês Eu devia agradecer ao Senhor por ter tido sucesso na vida como artista Eu devia estar feliz porque consegui comprar um Corcel 73 Eu devia estar alegre e satisfeito por morar em Ipanema Depois de ter passado fome por dois anos aqui na Cidade Maravilhosa Ah, eu devia estar sorrindo e orgulhoso por ter finalmente vencido na vida Mas eu acho isso uma grande piada e um tanto quanto perigosa Eu devia estar contente por ter conseguido tudo o que eu quis Mas confesso, abestalhado, que eu estou decepcionado Porque foi tão fácil conseguir e agora eu me pergunto: E daí? Eu tenho uma porção de coisas grandes pra conquistar E eu não posso ficar aí parado Eu devia estar feliz pelo Senhor ter me concedido o domingo Pra ir com a família no Jardim Zoológico dar pipoca aos macacos Ah, mas que sujeito chato sou eu, que não a...
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Leviana Reginaldo Rossi Eu te amei Me entreguei De um jeito que ninguém Jamais se entregou Amor igual ao meu Jamais vai encontrar Amar como eu te amo Ninguém vai te amar Porque você Ficava sussurrando junto ao meu ouvido Mentiras misturadas com o seu gemido E eu acreditava na sua palavra Leviana! Fazendo mil loucuras comigo na cama Queria acreditar que você ainda me ama E, apesar de tudo, eu sinto a sua falta Leviana! O Desejo Que Escapa e Nos Mantém Vivos Poeta Hiran de Melo A canção “Leviana”, de Reginaldo Rossi, é mais do que um lamento amoroso — é uma confissão existencial. O eu lírico se entrega com intensidade a um amor que se revela ilusório, e mesmo diante da traição, permanece ligado àquilo que perdeu. Essa persistência do afeto, mesmo na ausência, revela algo profundo sobre o ser humano: nossa abertura radical ao outro, nossa vulnerabilidade diante do desejo, e nossa incapacidade de fechar as portas que um dia escancaramo...
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Quando a lógica não dá conta da alma Poeta Hiran de Melo A primeira vez que ouvi The Logical Song , do Supertramp , não foi só uma experiência musical — foi como se alguém tivesse colocado em palavras aquilo que eu mesmo já havia sentido, mas nunca soube dizer. A canção fala de uma infância encantada, onde tudo parecia mágico, leve, cheio de sentido. E eu me vi ali, naquela lembrança de tempos em que a vida era simples e os dias tinham gosto de descoberta. Mas então vem a virada. O eu lírico é “mandado embora” para aprender a ser sensato, lógico, prático. E eu pensei: quantas vezes também fui ensinado a ser “apresentável”, “respeitável”, “confiável”? A gente aprende a se encaixar, a seguir regras, a parecer forte. Mas, no fundo, vai se afastando da própria essência. Vai deixando de viver com verdade para viver com função. A música mostra isso com uma clareza dolorosa. O mundo que se apresenta é clínico, intelectual, cínico. E o sujeito, antes vibrante, vira quase um veget...
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O Som do Silêncio Por Josivan Campos Brasil Brincadeira, sim — mas só para informar. Informar que a tarde foi tão bela, tão cheia de calor humano, que se recusava a terminar. Os momentos vividos se aninhavam no tempo como crianças em cobertores de afeto. A despedida, após uma bela tarde na acolhida da família maçônica? Ah, ela se anunciava com passos lentos, mas sabíamos: é necessária, é determinante, é — por mais que doa — obrigatória. Eu lhe provoco, mais uma vez: Fale-me da despedida. Conte-me das dores do último “tchau”, do “valeu”, do “fica de boa”… E também dos silêncios que vieram depois, mais pesados que qualquer xingamento. Porque o silêncio, esse sim, é cruel. É a presença do mal e a ausência do Bem. É o eco do que não foi dito, o vazio onde antes havia voz. E a luz? A luz não precisa ser anunciada. Ela é. Ela chega sem pedir licença, e quando chega, tudo muda. A escuridão não é negra — é apenas o lugar onde a luz ainda não tocou. E quando ela toca, revela. Rev...
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Depoimento na manhã de domingo Por Amanda Rafaela Amar, ao meu ver, é algo profundo. É como passar pelas fases mais difíceis de um videogame. A reciprocidade desse desejo dá origem à amizade, ao companheirismo, à escuta, ao amor maduro , sincero, sem muita euforia. Mas o prazer continua só em ter a certeza de que o ser amado ainda está do teu lado, mesmo cheio de cicatrizes, marcas profundas, vícios, recomeços, aceitação e reconhecimento de traumas. O bonito do amor maduro é isso. Porém, hoje os (homens - meninos) são imaturos nesse quesito. Vivem presos na idealização da mulher curvilínea, durinha, viçosa. Isso é o que traz a vitalidade do homem. Eles não querem saber das dores que as mulheres têm, dos medos que todo ser humano tem, das cicatrizes. Nenhum jovem de 40, 50 anos consegue continuar o encantamento, o desejo, a magia das novas mulheres de hoje. São pesos, jaulas, amarras. A maioria dos homens não está nem quer amar, querem sexo, casualidade, não querem ...