Quando a lógica não dá conta da alma

Poeta Hiran de Melo

A primeira vez que ouvi The Logical Song, do Supertramp, não foi só uma experiência musical — foi como se alguém tivesse colocado em palavras aquilo que eu mesmo já havia sentido, mas nunca soube dizer. A canção fala de uma infância encantada, onde tudo parecia mágico, leve, cheio de sentido. E eu me vi ali, naquela lembrança de tempos em que a vida era simples e os dias tinham gosto de descoberta.

Mas então vem a virada. O eu lírico é “mandado embora” para aprender a ser sensato, lógico, prático. E eu pensei: quantas vezes também fui ensinado a ser “apresentável”, “respeitável”, “confiável”? A gente aprende a se encaixar, a seguir regras, a parecer forte. Mas, no fundo, vai se afastando da própria essência. Vai deixando de viver com verdade para viver com função.

A música mostra isso com uma clareza dolorosa. O mundo que se apresenta é clínico, intelectual, cínico. E o sujeito, antes vibrante, vira quase um vegetal — alguém que existe, mas não sente. A lógica, que deveria ajudar, acaba virando uma prisão. E eu entendi que essa prisão não é feita de grades, mas de expectativas.

O trecho que mais me tocou foi aquele em que, no silêncio da noite, surgem as perguntas que não dormem: Quem eu sou? O que aprendemos? São perguntas que não cabem em fórmulas. Elas pedem escuta, presença, coragem. E é aí que a canção se aproxima da filosofia de Heidegger, que nos lembra que o ser não se define — ele se revela. E essa revelação não acontece no barulho da lógica, mas no silêncio do sentir.

O eu lírico se sente “ilógico”, “digital”, “inacreditável”. E eu senti junto. Porque há dias em que também me sinto desconectado, como se estivesse vivendo para fora, mas vazio por dentro. E então vem o pedido: Por favor, diga-me quem eu sou. Essa frase se repete como um sussurro, como um grito contido, como uma busca por reencontro.

No fim das contas, The Logical Song é uma travessia. Uma jornada entre o mundo encantado da infância e o labirinto racional da vida adulta. E ela nos convida a escutar — não o que esperam de nós, mas o que pulsa dentro de nós. Mesmo quando tudo parece calar.

E talvez seja aí que mora a resposta: não em saber quem somos, mas em continuar perguntando com ternura, com coragem, com poesia.

Fonte: https://www.letras.mus.br/supertramp/39228/traducao.html

Aprecie: https://www.youtube.com/watch?v=RuWp7HVqolg&list=RDRuWp7HVqolg&start_radio=1


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