O Desejo Que Escapa, Apesar de Você

Poeta Hiran de Melo

Ao escutar Apesar de Você, de Chico Buarque, não ouvimos apenas uma melodia — ouvimos um chamado. Um chamado à resistência, à coragem, à vida que insiste em florescer mesmo quando tudo parece escuro. Em tempos de censura e medo, Chico não apenas protestou: ele transformou dor em poesia, silêncio em canto, repressão em esperança. E isso nos toca profundamente, especialmente a nós que buscamos iluminar o caminho com nossos passos e inspirar com nosso exemplo.

A canção fala de um “você” que tenta mandar em tudo, que impõe regras, que quer controlar até o que sentimos. Mas o desejo — essa força que nos move por dentro — não se deixa prender. Ele escapa, retorna, se infiltra nas brechas da fala, nas entrelinhas da arte, nos gestos mais simples. Como nos ensina Jacques Lacan, o desejo é o que nos constitui como sujeitos. Ele nunca se satisfaz por completo, mas é o que nos impulsiona a sonhar, a criar, a viver.

Chico soube captar isso com maestria. Ele pegou o “grito contido”, o “samba no escuro”, o “amor reprimido” e transformou tudo em coro — um coro que canta na cara do opressor. E quando ele repete “Amanhã há de ser outro dia”, não está apenas esperando por tempos melhores. Está afirmando que o desejo não morre. Mesmo sufocado, ele insiste em viver.

Esse “amanhã” não é só uma data. É uma promessa. É a certeza de que a vida não se deixa prender. Que o ser — essa luz que buscamos acender dentro de nós — sempre encontra um jeito de se revelar. Martin Heidegger dizia que a poesia é uma forma privilegiada de trazer à luz aquilo que está encoberto. E é isso que Chico faz: transforma dor em beleza, silêncio em poesia, repressão em festa.

As imagens do galo que canta, do jardim que floresce, do céu que clareia sem pedir licença são sinais de que a existência verdadeira não se dobra. Ela dança, ela canta, ela floresce. E quando Chico diz “eu vou morrer de rir”, há ali uma vingança leve, quase brincalhona — o riso como cura, como libertação.

Apesar de Você é mais do que uma canção de protesto. É um testemunho. Um lembrete de que o desejo — quando é verdadeiro — sempre encontra o seu amanhã. E esse amanhã, quando chega, não pede licença. Ele simplesmente acontece.

Que essa mensagem nos inspire a seguir em frente, a transformar o que nos cerca, a iluminar o caminho com nossa presença. Que sejamos, cada um de nós, essa estrela que nasce do caos, esse jardim que floresce mesmo sob a sombra, esse canto que ninguém consegue calar. Porque viver é resistir, e resistir é criar.

Apesar de Você

Chico Buarque

 

Amanhã vai ser outro dia
Amanhã vai ser outro dia
Amanhã vai ser outro dia

Hoje você é quem manda
Falou, tá falado
Não tem discussão, não
A minha gente hoje anda
Falando de lado
E olhando pro chão, viu

Você que inventou esse estado
E inventou de inventar
Toda a escuridão
Você que inventou o pecado

Esqueceu-se de inventar
O perdão

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Eu pergunto a você
Onde vai se esconder
Da enorme euforia
Como vai proibir
Quando o galo insistir
Em cantar

Água nova brotando
E a gente se amando
Sem parar

Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros, juro
Todo esse amor reprimido
Esse grito contido
Este samba no escuro

Você que inventou a tristeza
Ora, tenha a fineza
De desinventar
Você vai pagar e é dobrado

Cada lágrima rolada
Nesse meu penar

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Inda pago pra ver
O jardim florescer
Qual você não queria
Você vai se amargar

Vendo o dia raiar
Sem lhe pedir licença
E eu vou morrer de rir
Que esse dia há de vir
Antes do que você pensa

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai ter que ver
A manhã renascer
E esbanjar poesia
Como vai se explicar
Vendo o céu clarear
De repente, impunemente

Como vai abafar
Nosso coro a cantar
Na sua frente

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai se dar mal
Etecetera e tal
Lá lá lá lá laiá

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