Os Relógios do Corpo e as Ondas da Alma Por Hiran de Melo O tempo do corpo é um sujeito pontual, britânico e um tanto inflexível. Ele acorda com o tique-taque dos segundos, caminha na linha reta das horas e não aceita desculpas. Olha-se no espelho e lá está ele, o tempo cronológico, operando sua engenharia visível e inevitável: as dimensões se modificam, o corpo vai ficando maior e as transformações vão se impondo. É assim que passamos, sem direito a retorno, pela fase de menino ou menina, depois de jovem, de adulto, até desaguarmos na fase dos idosos. Esse tempo é palpável, manifesto. Não há como negar que a matéria se dobra à tirania do calendário. Mas a mente, a alma... ah, essa desdenha dos ponteiros. Ela não é síncrona. Tem um descompasso profundo com o rodar mecânico das horas, dos minutos e dos segundos. A alma segue outros patamares, outras dimensões, outras ondas. É nesse território livre que testemunhamos os mais belos paradoxos da existência, onde as idades se cruzam e...
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Quando os Sonhos Despertam Branca de Neve, Aurora e a Travessia da Alma Por Hiran de Melo Existem histórias que não envelhecem porque nunca falaram apenas de princesas. Falaram de nós. Falaram dos longos invernos da alma. Falaram dos momentos em que a vida parece suspensa entre aquilo que fomos e aquilo que ainda não conseguimos ser. Talvez seja por isso que, ao aproximarmos Branca de Neve e Aurora, não estejamos apenas unindo dois contos antigos. Estamos reunindo dois arquétipos do mesmo mistério: o mistério do adormecimento necessário. Ambas dormem. Ambas desaparecem do mundo. Ambas atravessam um território onde o tempo deixa de existir. Mas o sono das duas não é derrota. É gestação. É silêncio. É transformação invisível. Branca de Neve repousa sob o encanto venenoso da maçã. Aurora cai sob o feitiço do fuso. Uma é guardada pelo cristal. A outra pelos espinhos. Uma é velada pelos anões. A outra por um reino inteiro adormecido. Mas, no f...
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A Casa Perdida e o Desejo Um Olhar Lacaniano sobre o Sonho e a Angústia Por Hiran de Melo O depoimento espontâneo enviado por WhatsApp — “Procuro voltar para casa, aparentemente conheço o caminho, mas não o encontro” — abre uma janela para o inconsciente que, à maneira de Jacques Lacan , revela o sujeito dividido entre o que sabe e o que não sabe, entre o que deseja e o que teme desejar. O sonho como metáfora do desejo O “não encontrar o caminho de casa” é mais do que uma imagem onírica; é o significante de uma falta estrutural. Em Lacan, o desejo nunca se satisfaz plenamente — ele é o movimento em torno de uma ausência, o eco de algo que o sujeito busca sem saber o que é. A casa, nesse contexto, não é apenas um lugar físico, mas o símbolo do retorno impossível ao ponto de origem , àquilo que o sujeito imagina como completude. A angústia e o real A angústia que aparece nos sonhos e persiste ao despertar é o sinal de que o sujeito se aproxima do Real , aquilo que es...
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Os Três Registros de Lacan Por Hiran de Melo A experiência humana, em sua tessitura mais íntima, não se organiza em etapas lineares, mas em dimensões que se entrelaçam e se tensionam mutuamente. O Imaginário, o Simbólico e o Real não são compartimentos estanques: são forças que se cruzam, se sustentam e se desestabilizam, constituindo o sujeito em sua precariedade e potência. 1. O Imaginário — a sedução da imagem É o território das identificações e dos reflexos, onde o sujeito se descobre na superfície do espelho e, ao mesmo tempo, se perde. A promessa de unidade é sempre enganosa: o “eu” que se vê é uma ficção, uma máscara que encobre a fragmentação. Alienação : o sujeito acredita ser aquilo que a imagem lhe devolve. Rivalidade : a relação com o outro é marcada pela disputa e pela busca de completude. Ilusão : aqui reina o engano, a crença em uma coerência que nunca se cumpre. 2. O Simbólico — a ordem da linguagem É o espaço da lei, da cultura...
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O Desejo Que Escapa, Apesar de Você Poeta Hiran de Melo Ao escutar Apesar de Você , de Chico Buarque, não ouvimos apenas uma melodia — ouvimos um chamado. Um chamado à resistência, à coragem, à vida que insiste em florescer mesmo quando tudo parece escuro. Em tempos de censura e medo, Chico não apenas protestou: ele transformou dor em poesia, silêncio em canto, repressão em esperança. E isso nos toca profundamente, especialmente a nós que buscamos iluminar o caminho com nossos passos e inspirar com nosso exemplo. A canção fala de um “você” que tenta mandar em tudo, que impõe regras, que quer controlar até o que sentimos. Mas o desejo — essa força que nos move por dentro — não se deixa prender. Ele escapa, retorna, se infiltra nas brechas da fala, nas entrelinhas da arte, nos gestos mais simples. Como nos ensina Jacques Lacan , o desejo é o que nos constitui como sujeitos. Ele nunca se satisfaz por completo, mas é o que nos impulsiona a sonhar, a criar, a viver. Chico soube captar isso ...