Leviana

Reginaldo Rossi

 

Eu te amei
Me entreguei
De um jeito que ninguém
Jamais se entregou

Amor igual ao meu
Jamais vai encontrar
Amar como eu te amo
Ninguém vai te amar
Porque você

Ficava sussurrando junto ao meu ouvido
Mentiras misturadas com o seu gemido
E eu acreditava na sua palavra
Leviana!

Fazendo mil loucuras comigo na cama
Queria acreditar que você ainda me ama
E, apesar de tudo, eu sinto a sua falta
Leviana!

 

O Desejo Que Escapa e Nos Mantém Vivos

Poeta Hiran de Melo

A canção “Leviana”, de Reginaldo Rossi, é mais do que um lamento amoroso — é uma confissão existencial. O eu lírico se entrega com intensidade a um amor que se revela ilusório, e mesmo diante da traição, permanece ligado àquilo que perdeu. Essa persistência do afeto, mesmo na ausência, revela algo profundo sobre o ser humano: nossa abertura radical ao outro, nossa vulnerabilidade diante do desejo, e nossa incapacidade de fechar as portas que um dia escancaramos.

O amor vivido na canção não é apenas sentimento — é modo de ser. Ao dizer “Eu te amei / Me entreguei / De um jeito que ninguém / Jamais se entregou”, o sujeito não está apenas narrando uma experiência; está revelando uma forma de existir que se define pela entrega, pela crença, pela esperança. Ele não apenas viveu o amor — ele foi esse amor. E quando esse mundo construído pela confiança desmorona, o que resta é a falta. Mas não uma falta qualquer: a falta que nos constitui, que nos move, que nos faz desejar.

O desejo, como nos ensina Jacques Lacan, nasce justamente daquilo que nos escapa. Não desejamos o que temos, mas o que nos falta — o que não pode ser plenamente dito, possuído ou compreendido. A mulher chamada “Leviana” encarna esse enigma: ela é prazer e dor, presença e ausência, verdade e mentira. E mesmo depois da decepção, o sujeito confessa: “eu sinto a sua falta”. Porque o desejo não se apaga com a perda; ele se intensifica. Ele não busca o objeto em si, mas o que ele simboliza: a promessa de completude que nunca se realiza, mas que nos mantém vivos.

A dor que atravessa a canção não é apenas pessoal — é ontológica. O mundo que o sujeito habitava, feito de palavras sussurradas e gemidos misturados à esperança, desmorona. Mas ele continua sendo. Porque o ser humano é, por natureza, um “ser-em-abertura”, sempre em relação com o tempo, com os outros, com o sentido. E mesmo ferido, não consegue simplesmente fechar essa abertura.

“Leviana” nos lembra que amar é correr o risco de perder, de sofrer, de desejar sem fim. Mas é também a prova de que estamos vivos, abertos, em movimento. O desejo que escapa não é fracasso — é potência. É ele que nos faz escrever canções, buscar sentidos, reinventar mundos. E é nele que reside a beleza da condição humana: amar, sofrer, lembrar, desejar — e continuar sendo.

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