Quando
os Sonhos Despertam
Branca
de Neve, Aurora e a Travessia da Alma
Por
Hiran de Melo
Existem
histórias que não envelhecem porque nunca falaram apenas de princesas.
Falaram de nós.
Falaram dos longos
invernos da alma.
Falaram
dos momentos em que a vida parece suspensa entre aquilo que fomos e aquilo que
ainda não conseguimos ser.
Talvez
seja por isso que, ao aproximarmos Branca de Neve e Aurora, não estejamos
apenas unindo dois contos antigos. Estamos reunindo dois arquétipos do mesmo
mistério: o mistério do adormecimento necessário.
Ambas dormem.
Ambas desaparecem do
mundo.
Ambas atravessam um
território onde o tempo deixa de existir.
Mas o sono das duas não é
derrota.
É gestação.
É silêncio.
É transformação
invisível.
Branca de Neve repousa
sob o encanto venenoso da maçã.
Aurora cai sob o feitiço
do fuso.
Uma é guardada pelo
cristal.
A outra pelos espinhos.
Uma é velada pelos anões.
A outra por um reino
inteiro adormecido.
Mas,
no fundo, ambas habitam o mesmo lugar simbólico: a caverna secreta onde a alma amadurece longe dos olhos
do mundo.
Porque há processos que
não podem acontecer sob aplausos.
Há despertares que exigem
escuridão.
Há flores que só aprendem
a abrir quando ninguém as observa.
Talvez
o maior equívoco seja imaginar que o centro dessas histórias seja o príncipe.
Não é.
O centro é o sono.
O centro é a travessia.
O centro é aquilo que
acontece no invisível.
Quando
imaginamos as duas narrativas entrelaçadas, surge uma imagem extraordinária.
Branca de Neve abre os
olhos.
Mas não desperta para o
bosque que conhecia.
Não
encontra imediatamente os pássaros, os cervos ou a cabana dos sete anões.
Ela desperta dentro do
castelo dos cem anos.
Ao seu redor existem
corredores silenciosos.
Tapeçarias cobertas pela
poeira do tempo.
Rosas selvagens
atravessando as janelas de pedra.
E
uma estranha sensação de que o mundo inteiro esteve esperando por aquele
instante.
Não apenas ela.
Tudo.
O reino.
As árvores.
O vento.
Os relógios.
A própria vida.
Então compreendemos algo
profundo.
Existem despertares que
não acontecem apenas dentro de nós.
Quando uma consciência
desperta, uma parte do mundo desperta junto.
Quando
uma alma encontra sua verdade, muitas correntes invisíveis são rompidas.
Os espelhos da Rainha Má
perdem seu poder.
Os fusos das antigas
maldições tornam-se apenas ferrugem.
Os medos herdados deixam
de governar o destino.
E
aquilo que parecia uma história sobre princesas revela-se uma história sobre
libertação.
A madrasta representa a
voz que exige perfeição.
A maldição representa o
medo do crescimento.
A maçã simboliza as
seduções que nos afastam de nós mesmos.
Os
espinhos representam as barreiras que construímos para não enfrentar a própria
transformação.
Mas nada disso pode durar
para sempre.
Porque existe uma força
silenciosa trabalhando dentro da alma.
Uma força que amadurece
mesmo durante a noite.
Uma força que continua
crescendo mesmo quando tudo parece parado.
É por isso que o
despertar nunca é um retorno.
Ninguém retorna da mesma
forma.
Quem atravessa a floresta
não é mais a mesma pessoa que entrou nela.
Quem sobrevive ao inverno
não reencontra a primavera como antes.
Quem desperta não
recupera a antiga identidade.
Recebe uma nova.
No
instante em que Branca de Neve e Aurora se tornam uma única figura simbólica,
elas deixam de ser princesas esperando resgate.
Transformam-se em
soberanas.
Não soberanas de um reino
exterior.
Mas de si mesmas.
E
talvez seja esta a verdadeira mensagem escondida sob os séculos de
encantamento.
Todos nós carregamos uma
maçã e um fuso.
Todos nós conhecemos os
espinhos.
Todos nós passamos por
noites onde a vida parece suspensa.
Mas também carregamos a
possibilidade do despertar.
A
possibilidade de atravessar a escuridão sem nos tornarmos a própria escuridão.
A
possibilidade de acordar não para o mundo que existia antes, mas para um mundo
renovado pela consciência.
No final, os espinhos
caem.
As maldições perdem o
nome.
Os espelhos se quebram.
E a alma compreende
aquilo que sempre buscou.
Que a verdadeira casa não
estava no castelo.
Nem na floresta.
Nem no beijo.
Estava no próprio
despertar.
E
a vida, como uma antiga rainha coroada pela manhã, volta a pulsar em toda a sua
misteriosa beleza.
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