Os Relógios do Corpo e as Ondas da Alma

Por Hiran de Melo

O tempo do corpo é um sujeito pontual, britânico e um tanto inflexível. Ele acorda com o tique-taque dos segundos, caminha na linha reta das horas e não aceita desculpas. Olha-se no espelho e lá está ele, o tempo cronológico, operando sua engenharia visível e inevitável: as dimensões se modificam, o corpo vai ficando maior e as transformações vão se impondo. É assim que passamos, sem direito a retorno, pela fase de menino ou menina, depois de jovem, de adulto, até desaguarmos na fase dos idosos. Esse tempo é palpável, manifesto. Não há como negar que a matéria se dobra à tirania do calendário.

Mas a mente, a alma... ah, essa desdenha dos ponteiros. Ela não é síncrona. Tem um descompasso profundo com o rodar mecânico das horas, dos minutos e dos segundos. A alma segue outros patamares, outras dimensões, outras ondas. É nesse território livre que testemunhamos os mais belos paradoxos da existência, onde as idades se cruzam e se completam.

De um lado desse cenário, cruzei com um senhor cuja carcaça já acumulava a respeitável bagagem da idade avançada. Pelo calendário do mundo, um idoso; pela postura do peito, uma criança. Ele já habitava o destino final do tempo cronológico, mas mantinha intacta a alma de menino. Tinha aquela pureza quase desconcertante de quem perdoa sem esforço e não guarda rancor. Facilmente iludido, acreditava piamente que todo mundo é bom — e o mundo precisava suar para provar o contrário e convencê-lo do oposto.

Para esse senhor, a falta de bondade alheia não era uma maldade intrínseca, mas apenas uma questão de ausência de luz. Dizia que na natureza humana há uma tendência natural a buscar o bem, e que não existe essa história de um "malfeitor" ou de um "tentador". O que há são pessoas nas sombras; mas, tão logo a luz chega, a sombra se evapora e some. Quem age com maldade, no fundo, carece é de generosidade. E quem tenta enganar os outros, antes de tudo, enganou a si mesmo. Ele já era o que o tempo biológico impunha, mas sua essência recusou-se a envelhecer.

Do outro lado, como em um espelho que projeta o mesmo desejo em direções opostas, lembro-me de um jovem de quatorze para quinze anos, no vigor da sua própria aurora. Ele não era um idoso com alma de criança; era um menino que, prevendo as amarguras do tempo do corpo, manifestava o desejo urgente de não perder o que ainda tinha. Ele me disse: "Eu gostaria de ser uma eterna criança". Curioso com aquela precoce lucidez, perguntei-lhe o porquê. E ele, com a profundidade dos que enxergam além dos ponteiros, respondeu: "Porque a criança sempre perdoa".

Fiquei completamente encantado. Enquanto o primeiro conseguiu a proeza de atravessar a vida e conservar a pureza da infância na velhice, o segundo, no início da jornada, já compreendia que o perdão era o escudo necessário para resguardar a alma antes que o tempo a enrijecesse. Um guardava a infância no fim; o outro queria blindá-la no início.

Esse compromisso com a pureza contrasta fortemente com os que vivem o conflito da alma que se recusa a assumir seu tempo. São aqueles que, encantados com a beleza física da juventude, tentam esticá-la artificialmente na maturidade. Querem comportar-se, correr e vestir-se como jovens, mas já estando na idade adulta. Buscam a ampla liberdade, mas recusam o peso inevitável das escolhas. Querem o direito de decidir, mas não o ônus do destino decorrente de suas atitudes. Esquecem-se de que a verdadeira maturidade da alma não está em envelhecer o sentimento, mas em compreender que a liberdade caminha lado a lado com a responsabilidade das próprias decisões.

O sofrimento humano nasce, em grande parte, desse ecoar de dois relógios que teimam em não bater a mesma hora. Mas é também desse descompasso que nasce a nossa poesia. O corpo envelhece na linha reta do tempo; a nossa essência dança em círculos, livre das amarras do calendário. Compreender isso é entender que o menino que fomos, o jovem que ousamos ser e o ancião que nos espreita coexistem agora, neste exato segundo, provando que a eternidade é apenas o tempo da alma que aprendeu a voar acima dos relógios.

Compreender também que a descoberta do ser e do sentido da vida pode se dar através de estudos que se elevam como em uma escada em caracol, passando por pontos já vencidos, mas agora com um olhar mais amplo do caminho.

Versão aprofundada

Os Relógios do Corpo e as Ondas da Alma

Por Hiran de Melo

Há duas espécies de tempo habitando o ser humano.

Uma delas mora no corpo.

A outra mora no mistério.

O corpo conta dias.

A alma conta significados.

O corpo mede distâncias.
A alma mede profundidades.

O corpo envelhece.
A alma se transforma.

Talvez a grande tragédia da existência humana tenha sido acreditar que ambos os relógios obedecem ao mesmo mecanismo.

Não obedecem.

O tempo cronológico é disciplinado, previsível e rigoroso. Ele segue avançando sem jamais consultar nossos desejos. A cada manhã acrescenta uma linha ao rosto, uma experiência à memória, um limite novo à matéria. É um escultor silencioso que trabalha sem descanso.

Mas existe um outro tempo.

Um tempo que não cabe nos calendários.

Um tempo que escapa dos ponteiros.

Um tempo que habita as regiões invisíveis do ser.

A alma desconhece a lógica das horas.

Por isso encontramos crianças que nasceram velhas e anciãos que conservam a pureza de um jardim recém-desperto.

A idade do corpo raramente coincide com a idade da consciência.

Foi assim que, certa vez, encontrei um homem cuja biologia já caminhava pelas estradas finais da existência, mas cuja alma continuava brincando nos campos da infância. Havia nele uma confiança quase escandalosa na bondade humana. Perdoava com facilidade. Não cultivava ressentimentos. Via nas pessoas não aquilo que eram em seus momentos mais sombrios, mas aquilo que poderiam ser quando alcançadas pela luz.

E então compreendi algo.

A verdadeira juventude não está na pele.

Está na capacidade de continuar acreditando.

A velhice da alma não chega quando os cabelos embranquecem.

Chega quando a esperança endurece.

Mais tarde, encontrei o paradoxo oposto.

Um adolescente que ainda mal havia iniciado sua travessia pelo mundo carregava uma reflexão que muitos idosos jamais alcançam.

Quando lhe perguntaram o que desejava ser, respondeu:

— Gostaria de ser uma eterna criança.

A resposta poderia parecer ingenuidade.

Mas não era.

Era sabedoria.

Quando questionado sobre o motivo, respondeu com simplicidade:

— Porque a criança sempre perdoa.

Naquele instante percebi que o perdão talvez seja a forma mais elevada de inteligência espiritual.

A criança perdoa porque ainda não aprendeu a transformar feridas em identidade.

O adulto, frequentemente, passa a colecionar dores como quem coleciona medalhas.

Constrói muralhas.

Ergue tribunais interiores.

Condena.

Acumula.

E pouco a pouco deixa de viver para apenas defender-se.

O menino queria preservar aquilo que a vida costuma roubar.

Queria proteger sua fonte antes que a aridez chegasse.

E talvez seja exatamente esse o trabalho mais importante da existência.

Não amadurecer abandonando a infância.

Mas amadurecer carregando-a consigo.

Existe uma diferença profunda entre ser infantil e permanecer criança na alma.

O infantil foge da responsabilidade.

A criança espiritual abraça a vida com espanto, curiosidade e compaixão.

Por isso muitos sofrem quando tentam aprisionar a alma numa idade que já passou.

Alguns desejam permanecer eternamente jovens porque confundem juventude com liberdade.

Mas liberdade não é ausência de consequências.

Liberdade é a coragem de assumir aquilo que escolhemos.

A verdadeira maturidade não consiste em abandonar os sonhos.

Consiste em aprender a responder por eles.

Talvez seja justamente desse conflito que nasça grande parte da angústia humana.

Dois relógios habitam o mesmo ser.

Um corre em linha reta.

O outro dança em espirais.

Um conta anos.

O outro conta despertares.

Um caminha para o fim.

O outro busca o infinito.

E nós vivemos no encontro desses dois movimentos.

Mas aquilo que parece uma contradição talvez seja, na verdade, um convite.

Porque a vida não é uma escada comum.

É uma escada em caracol.

Passamos pelos mesmos temas inúmeras vezes.

O amor.

A dor.

A perda.

A fé.

O perdão.

A solidão.

A esperança.

Voltamos aos mesmos lugares interiores, mas nunca somos exatamente os mesmos. Cada retorno acontece de um ponto mais alto da espiral. Cada repetição traz uma nova compreensão.

Por isso o menino que fomos nunca desaparece.

O jovem que sonhou ainda respira dentro de nós.

O ancião que um dia seremos já habita nossas escolhas presentes.

Todos coexistem.

Todos conversam.

Todos participam da mesma construção invisível.

E talvez a eternidade não seja um tempo sem fim.

Talvez seja apenas o instante em que finalmente percebemos que a alma nunca pertenceu aos relógios.

Ela apenas os observava passar.

Enquanto aprendia a voar.

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