A Casa Perdida e o Desejo
Um Olhar Lacaniano sobre o Sonho e a
Angústia
Por Hiran de Melo
O depoimento espontâneo enviado por WhatsApp —
“Procuro voltar para casa, aparentemente conheço o caminho, mas não o encontro”
— abre uma janela para o inconsciente que, à maneira de Jacques Lacan,
revela o sujeito dividido entre o que sabe e o que não sabe, entre o que deseja
e o que teme desejar.
O sonho como metáfora do desejo
O “não encontrar o caminho de casa” é mais do que uma
imagem onírica; é o significante de uma falta estrutural. Em Lacan, o
desejo nunca se satisfaz plenamente — ele é o movimento em torno de uma
ausência, o eco de algo que o sujeito busca sem saber o que é. A casa, nesse
contexto, não é apenas um lugar físico, mas o símbolo do retorno impossível
ao ponto de origem, àquilo que o sujeito imagina como completude.
A angústia e o real
A angústia que aparece nos sonhos e persiste ao
despertar é o sinal de que o sujeito se aproxima do Real, aquilo que
escapa à simbolização. Quando o narrador diz “Passei o dia todo com vontade de
chorar”, o choro não é apenas emoção — é o corpo respondendo à irrupção do
Real, àquilo que não pode ser dito, mas se sente.
O desejo de embriagar-se
O impulso de “querer se embriagar” ou “comer mais do
que precisava” é uma tentativa de tamponar o buraco do desejo. Lacan
diria que o sujeito busca o gozo (jouissance) — uma satisfação que ultrapassa o
prazer e toca o limite do sofrimento. O empachamento, curiosamente, funciona
como defesa: “Empachado não dá pra beber.” O corpo, saturado, impede o excesso
do gozo.
O amanhecer e o Outro
No trecho final — “Hoje amanheci com vontade de beber,
mas na companhia de quem estiver feliz” — surge uma mudança sutil: o desejo se
desloca do objeto (a bebida) para o Outro. O sujeito não quer apenas
beber; quer compartilhar o gesto com alguém que celebra a vida. É o movimento
do desejo em direção ao laço social, à possibilidade de reencontrar o Outro
como espelho da própria falta.
Conclusão
O relato é um retrato delicado do sujeito
contemporâneo: perdido entre o excesso e a falta, entre o desejo de gozar e o
medo de se perder. A “casa” que não se encontra talvez seja a metáfora da
própria subjetividade — um lugar que se busca, mas que só existe enquanto se
procura.
Como diria Lacan, “o desejo é o desejo do Outro”.
E talvez, nesse amanhecer menos angustiado, o sujeito tenha começado a perceber
que o caminho para casa passa inevitavelmente pelo encontro com o Outro — não
para preencher o vazio, mas para reconhecê-lo como parte da condição humana.
Versão Aprofundada
A Casa Perdida e o Desejo
Sobre os caminhos que conhecemos e não encontramos
Por Hiran de Melo
Recebi uma mensagem
simples.
Poucas palavras.
Mas algumas frases
carregam mais mistério do que bibliotecas inteiras.
A mensagem dizia:
"Procuro voltar para
casa. Aparentemente conheço o caminho, mas não o encontro."
Fiquei pensando nisso
durante horas.
Porque talvez essa não
seja apenas a descrição de um sonho.
Talvez seja a descrição
da vida.
Há momentos em que
sentimos exatamente isso.
Sabemos para onde
queremos voltar.
Reconhecemos a paisagem.
Algo dentro de nós afirma
que já estivemos ali.
Mas, por alguma razão, o
caminho desapareceu.
Caminhamos.
Tentamos.
Recordamos.
E, ainda assim, não
chegamos.
Talvez porque a casa que
procuramos não esteja em lugar algum do mundo exterior.
Talvez esteja dentro.
E justamente por isso
seja tão difícil encontrá-la.
Desde muito cedo,
carregamos a sensação de que existe um lugar onde tudo finalmente fará sentido.
Um lugar onde as
perguntas cessam.
Onde as feridas encontram
repouso.
Onde a alma deixa de
sentir saudade de algo que nunca conseguiu nomear.
Passamos a vida inteira
procurando essa casa.
Alguns a procuram no
amor.
Outros no trabalho.
Outros no poder.
Outros na religião.
Outros ainda na constante
ocupação de si mesmos.
Mas existe uma estranha
característica dessa busca:
quanto mais nos
aproximamos dela, mais ela parece se afastar.
Como um horizonte.
Como uma estrela.
Como um sonho que
desaparece ao amanhecer.
Talvez porque a casa não
seja um destino.
Talvez seja um caminho.
Talvez não seja um lugar
para onde voltamos.
Talvez seja algo que
aprendemos a construir.
O relato continua.
Depois do sonho, surge a
tristeza.
Uma vontade inexplicável
de chorar.
E quem nunca experimentou
isso?
Aquele aperto silencioso
que não possui causa evidente.
Aquela melancolia que
parece vir de muito longe.
Como se alguma parte
esquecida de nós estivesse tentando falar.
Nem toda lágrima nasce da
tristeza.
Algumas nascem do
encontro.
Há momentos em que
tocamos algo profundo demais para ser traduzido em palavras.
E então o corpo fala por
nós.
Os olhos fazem aquilo que
a linguagem não consegue fazer.
As lágrimas tornam-se uma
oração sem palavras.
Uma confissão sem voz.
Um testemunho de que
existe dentro de nós um território que continua além de toda explicação.
Depois vem o impulso de
preencher o vazio.
Comida.
Bebida.
Distrações.
Excessos.
A humanidade inteira
conhece essa tentativa.
Quando a alma dói,
procuramos anestesias.
Quando o silêncio se
torna grande demais, buscamos ruídos.
Quando a ausência se
aproxima, tentamos ocupá-la com alguma presença.
Mas há algo curioso.
Nenhum excesso consegue
resolver aquilo que pertence à alma.
Podemos encher a mesa.
Podemos encher a agenda.
Podemos encher a casa.
Podemos até encher o
coração de experiências.
Mas o vazio continua ali.
Não porque seja um
defeito.
Mas porque talvez ele
faça parte da própria condição humana.
Somos seres inacabados.
Somos viajantes.
Somos perguntas
caminhando.
E talvez o sofrimento
comece justamente quando tentamos eliminar aquilo que deveria apenas ser
compreendido.
No entanto, o relato
guarda uma pequena luz.
Uma mudança quase
imperceptível.
Ao amanhecer, já não
existe apenas o desejo de beber.
Existe o desejo de estar
com alguém feliz.
Isso muda tudo.
Porque já não se busca
apenas uma substância.
Busca-se companhia.
Presença.
Partilha.
Comunhão.
A alma começa a
compreender algo fundamental:
há vazios que não foram
feitos para ser preenchidos por coisas.
Foram feitos para ser
atravessados junto de outras pessoas.
Nenhum ser humano
encontra sozinho todos os caminhos de volta.
Precisamos de rostos.
Precisamos de abraços.
Precisamos de conversas.
Precisamos daqueles
encontros que nos recordam que ainda pertencemos à vida.
Talvez seja esse o
segredo escondido dentro do sonho.
A casa continua distante
porque não é um endereço.
É uma experiência.
É aquele lugar invisível
onde finalmente nos reconciliamos com quem somos.
E talvez nunca a
encontremos completamente.
Talvez a beleza esteja
justamente na busca.
Talvez a casa seja o
próprio caminhar.
Talvez seja o encontro
inesperado ao longo da estrada.
Talvez seja a capacidade
de continuar procurando mesmo quando o mapa desaparece.
Porque existem buscas que
nunca terminam.
E, ainda assim, são elas
que dão sentido à jornada.
Afinal, quem sabe a casa
que procuramos não esteja no final do caminho.
Quem sabe ela esteja nas
pessoas que encontramos enquanto tentamos chegar até ela.
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