A RESISTÊNCIA QUE SE FAZ PRESENTE NA CLÍNICA PSICANALÍTICA: DESAFIOS
E TRANSFORMAÇÕES
Hiran de Melo¹
¹Campina Grande – PB, Brasil. E-mail: hiran.melo@gmail.com
Resumo
Este artigo propõe uma metáfora pictórica para
explorar a resistência na clínica psicanalítica, comparando o desenvolvimento
psíquico à imagem de uma "tela em branco" preenchida pelas
"tintas" das interações primárias. A resistência é apresentada como
obstáculo à mudança, manifestando-se tanto no analisando, através do "gozo
proporcionado pelo sintoma", quanto no analista, por meio da "postura
fechada" diante de seus próprios pressupostos. A análise é compreendida
como um processo de transformação mútua, no qual a superação da resistência é
fundamental para a reelaboração do sintoma e para a busca de uma expressão mais
autêntica do sujeito — comparável à transição de um "esboço" para uma
"obra de arte". Ressalta-se a importância de reconhecer o óbvio e a
singularidade de cada caso como condição para a produção de um saber libertador
do sofrimento.
Palavras-chave: resistência;
psicanálise; clínica psicanalítica; sintoma; desenvolvimento psíquico; análise;
transformação; metáfora pictórica; criança; analista; gozo; sofrimento; obra de
arte.
Introdução
Neste artigo, utilizamos uma metáfora pictórica
para descrever o desenvolvimento psíquico e o processo analítico, com foco na
resistência como elemento central. A criança é representada como uma "tela
em branco", sobre a qual os "outros" (pais, cuidadores, ambiente)
depositam suas "tintas", moldando a subjetividade. Essa imagem remete
à concepção de que o psiquismo se constitui a partir das interações e
experiências primárias, em consonância com os fundamentos freudianos sobre as
primeiras relações objetais.
A
tela em branco e o esboço do sintoma
Ao nascer, a criança pode ser pensada como uma
tela virgem. Os primeiros a manejarem pincéis e tintas são os pais ou
responsáveis — por vezes, uma mãe que assume quase sozinha os cuidados, ou, em
outros contextos, uma rede de cuidadores. Assim, a subjetividade se desenha
inicialmente com esboços que anunciam expectativas: "um vencedor",
"um pacificador", entre outras projeções. Desde então, começa a se
delinear o que poderá ser, no futuro, reconhecido como uma obra de arte ou um
borrão.
Esse borrão pode exigir reparos — seja porque
representa um sofrimento interno, seja porque afeta o entorno, ou ainda por
ambos. A entrada de novos "pintores", como professores e colegas,
também influencia essas marcas psíquicas.
A partir dessas múltiplas pinceladas, surge o
sintoma dominante. O saber que se constrói (ou não) em torno desse sintoma
contribuirá para que o sujeito venha a se perceber (e a ser percebido) como uma
obra ou como um borrão.
Importa destacar que há casos em que o saber
sobre o sintoma não se constitui na mente da criança. Estes, no entanto, não
serão objeto de discussão neste trabalho, que se limita à situação delineada.
O
sintoma como tentativa de solução
Na metáfora proposta, o sintoma se forma como
expressão de um impasse interno — um borrão que tenta resolver um conflito
psíquico, mas que, frequentemente, apenas o aprofunda. Nesse sentido, o
processo analítico surge como tentativa de "reparar" esse borrão, não
para apagá-lo, mas para reelaborá-lo. Trata-se de uma transformação criativa
que visa resignificar experiências traumáticas e padrões repetitivos.
É neste ponto que, muitas vezes, os pais buscam
apoio psicanalítico: em busca de compreender o sintoma, aliviar o sofrimento da
criança e, por extensão, beneficiar a família e a comunidade em que ela está
inserida.
A
resistência no processo analítico
Superada a fase de preparação para a análise, o
analista se depara com o desafio de contribuir para a constituição de duas
versões mais elaboradas do humano: a da criança e a de si próprio. Dentre os
diversos obstáculos, este artigo destaca um: a resistência.
A resistência manifesta-se de forma dupla. No
analisando, ela aparece como o "gozo proporcionado pelo sintoma" —
uma satisfação inconsciente que, mesmo dolorosa, é mantida. No analista, revela-se
na "postura fechada" diante de seu próprio saber, enraizada em
paradigmas teóricos ou experiências pessoais não elaboradas.
Quando rompida, essa resistência pode gerar novos
saberes e proporcionar alívio da dor, o que caracteriza uma análise bem-sucedida.
No entanto, caso se fortaleça, a resistência pode se tornar um fator que
inviabiliza a transformação.
Da
resistência à transformação
A análise pode ser simbolicamente representada
como o processo de transformar um esboço em uma obra de arte. Esta metáfora
sintetiza o objetivo terapêutico: permitir ao sujeito expressar-se de maneira
mais autêntica, superando o automatismo do sintoma.
Não se pretende aqui apresentar um conjunto de
técnicas ou um "manual de sucesso" na clínica. Nosso foco é chamar atenção
para o óbvio — aquilo que, por ser tão evidente, muitas vezes passa
despercebido. E o óbvio, na clínica, é precioso: cada caso é único, e com ele
emerge a possibilidade de um saber singular, libertador do sofrimento.
A libertação do gozo atrelado ao sintoma deve ser
o foco central do trabalho analítico. Trata-se de ajudar o sujeito — seja
criança ou analista — a dar um passo adiante, tornando-se menos
"borrão" e mais "obra", menos repetição e mais criação.
Considerações
finais
Tanto a criança quanto o analista são produtos de
histórias, sintomas e marcas — e ambos carregam seus próprios
"borrões". A clínica psicanalítica é, assim, um espaço de encontro
entre dois sujeitos que, na travessia da resistência, podem colaborar
mutuamente na construção de um novo saber: um saber que cura, que ilumina, que
dá passagem ao fluxo de uma vida mais viva.
Referência
FERNANDES, Maria Cristina Maia de O. Psicanálise com crianças. Aula
ministrada no curso de Especialização em Clínica Psicanalítica, UNICORP
Faculdades, Campina Grande – PB, 08 mar. 2025.
FREUD, S. (1915). "Repressão". In: Edição Standard Brasileira das
Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1974, v.
XIV. 1
LACAN, J. (1966). "Subversão do sujeito e dialética do desejo".
In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

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